Informar, acompanhar e tratar: novas ferramentas para identificar e tratar os sintomas cognitivos nos transtornos do humor

A cognição é uma meta importante no tratamento da depressão e do transtorno bipolar (TB). Os sintomas cognitivos são reconhecidos em pacientes com transtornos do humor, assim como em pacientes com esquizofrenia e demência, mas costumam ser considerados uma consequência dos sintomas do humor, e não uma característica separada da doença. No entanto, os sintomas cognitivos podem permanecer quando os sintomas depressivos são tratados. Durante uma sessão de brainstorming no ECNP 2018, o Professor Eduard Vieta, do Departamento de Psiquiatria e Psicologia da Universidade de Barcelona, na Espanha, apresentou novas recomendações para ajudar aos clínicos a avaliar e manejar a cognição nos pacientes.

Identificar e abordar os problemas cognitivos é crucial para alcançar resultados satisfatórios no transtorno depressivo maior (TDM), como a melhora da qualidade de vida, do trabalho e do prognóstico. O melhor preditor de mau funcionamento é a presença de comprometimento cognitivo quando é considerado que o paciente esteja em remissão.

O melhor preditor de mau funcionamento é a presença de comprometimento cognitivo quando é considerado que o paciente está em remissão.

Ferramentas de triagem para avaliação cognitiva

Para avaliar a cognição podem ser usadas ferramentas subjetivas e objetivas. As medidas subjetivas são mais fáceis de implementar no contexto clínico, com perguntas sobre a cognição no dia-a-dia e sintomas de humor. As medidas objetivas são mais demoradas, e tradicionalmente exigem uma avaliação neuropsicológica, sendo pouco práticas para a agenda atribulada dos clínicos.

As ferramentas de triagem gratuitas são rápidas e fáceis de usar.

Para resolver isso, a Força-tarefa sobre Cognição da Sociedade Internacional para Transtornos Bipolares (ISBD) desenvolveu recentemente uma série de recomendações baseadas em consenso, para ajudar aos clínicos a avaliar e tratar os sintomas cognitivos, que podem ser utilizadas também para outros transtornos de humor. O website da ISBD fornece os atalhos para as ferramentas de avaliação, tanto as subjetivas (COBRA - avaliação sobre queixas cognitivas no transtorno bipolar) quanto as objetivas (SCIP - triagem para comprometimento cognitivo em psiquiatria).1Essas ferramentas gratuitas, validadas e multilíngues são de execução rápida (≤ 15 minutos) e de aplicação fácil para os clínicos.
Os limiares de > 14 para o COBRA e < 70 para o SCIP têm uma boa especificidade para sintomas cognitivos. Idealmente, os testes devem ser realizados quando o paciente está em remissão, uma vez que o estado clínico afetará o resultado, e o nível de escolaridade e o QI também devem ser levados em consideração.

Identificando as causas subjacentes

Caso sejam detectados sintomas cognitivos, o próximo passo, segundo o Professor Vieta, é determinar se a causa é primária ou secundária.2 É importante identificar as causas secundárias subjacentes, pois muitas podem ser tratadas de forma efetiva. Elas incluem humor, comorbidades, questões de estilo de vida e medicação.

As causas secundárias são importantes para identificar e tratar os sintomas cognitivos.

A presença de sintomas depressivos subclínicos pode causar problemas cognitivos, mesmo quando o paciente acredita estar recuperado, daí a importância de se buscar a remissão completa. As comorbidades podem não ser muito evidentes, assim como o uso de álcool, de outras substâncias ou de drogas ilícitas, e deve-se considerar a possiblidade de transtornos de ansiedade, além de quadros clínicos não-psiquiátricos, como hipotireoidismo, síndrome metabólica, diabetes e hipertensão. A medicação pode mitigar alguns sintomas, mas também pode piorar os sintomas cognitivos, então a dose e o tipo de agente precisam ser reavaliados, embora trocar a medicação pode não ser aconselhável se o paciente estiver estável. A polifarmácia é comum, e foi encontrada uma correlação entre o número de medicamentos e os sintomas cognitivos.3

É importante considerar que o paciente pode ter uma doença cerebral orgânica ou demência associada, e nesse caso ele deve ser encaminhado para uma avaliação diagnóstica completa. Outras causas de comprometimento cognitivo primário incluem complicações obstétricas, anomalias do neurodesenvolvimento ou carga alostática de episódios maníacos ou psicóticos anteriores.

Informar, acompanhar e tratar

Vários agentes promissores estão sendo estudados.

Se não for encontrada uma causa secundária tratável, o Professor Vieta recomendou fazer pelo menos triagens anuais para o acompanhamento da cognição ao longo do tempo, bem como recomendou o uso do novo livreto de informações para o paciente da ISDB, para fornecer aos pacientes1 informações e orientações sobre como lidar com os seus sintomas cognitivos.

Houve intensa participação do público durante a sessão de brainstorming, que abordou questões como o risco de demência nos transtornos de humor, como aumentar a reserva cognitiva e possíveis intervenções terapêuticas.

Outras leituras

 Você pode ler mais sobre ferramentas digitais para a avaliação de sintomas cognitivos aqui: https://progress.im/en#thinc-frontpage-panel

Referências
 
  1. Vieta et al. Nat Rev Dis Primers 2018; 4:18008.
  2. Niikawa et al. Geriatr Gerontol Int 2017; 17(9):1286-93
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