Avanços em direção à precisão na Psiquiatria: “Ouse, Compartilhe e Cuide”

Estamos nos aproximando de uma nova era, na qual haverá tratamentos específicos para subtipos de pacientes. A Professora Marion Leboyer, vencedora do Prêmio de Neuropsicofarmacologia do ECNP 2018, descreveu os passos necessários em direção à medicina de precisão na psiquiatria. Os avanços em fenotipagem detalhada em análises de big data permitirão a estratificação dos pacientes, o desenvolvimento de tratamentos orientados para alvos específicos, terapia celular, tratamentos psicossociais e bioterapia/neuromodulação.  No momento, já há avanços na otimização do tratamento da esquizofrenia. A inflamação foi identificada como um elo chave entre os fatores de risco ambientais e os transtornos psiquiátricos.

Em sua palestra, a Professora Marion Leboyer (Universidade de Paris, em Créteil, na França), vencedora do Prêmio de Neuropsicofarmacologia do ECNP 2018, descreveu os 3 princípios que nortearam sua pesquisa:

Ouse pensar fora da caixa, Compartilhe e Cuide.

Caminhando na direção da medicina de precisão

A Professora Leboyer previu uma nova era de medicina de precisão, na qual diferentes tratamentos serão usados para diferentes subtipos de pacientes. O tratamento com anti-inflamatórios, por exemplo, seria considerado para aqueles pacientes que apresentam evidências de uma etiologia inflamatória.

A medicina de precisão transformará o diagnóstico, o tratamento e o prognóstico.

Um objetivo da psiquiatria é desenvolver ferramentas diagnósticas que permitam identificar subgrupos homogêneos de transtornos psiquiátricos, preparando o caminho para a identificação de tratamentos inovadores baseados em mecanismos. Os avanços em fenotipagem detalhada e as análises de big data permitirão a estratificação de pacientes e uso de estratégias terapêuticas precisas, o que inclui tratamentos dirigidos a alavos específicos, terapia celular, tratamentos psicossociais e bioterapia/neuromodulação.

Um objetivo da psiquiatria é desenvolver ferramentas diagnósticas que permitam uma melhor identificação de subgrupos homogêneos de transtornos psiquiátricos

Passos para a melhora dos cuidados

A medicina de precisão está contribuindo para a otimização do tratamento da esquizofrenia. No passado, era impossível prever resposta ao tratamento, possivelmente em função da heterogeneidade dos pacientes.

No estudo OPTiMiSE, os pacientes foram estratificados em 4 subtipos, sendo um destes caracterizado por uma assinatura inflamatória em conjunto com sintomas mais graves. Dentre os pacientes que apresentaram o fenótipo inflamatório, a falta de eficácia dos antipsicóticos foi prevista com acurácia de 80%. Entretanto, através do uso de um simples algoritmo de tratamento para a identificação da necessidade de mudança do tratamento, foi possível alcançar a remissão sintomática para a maioria dos pacientes nos estágios iniciais de esquizofrenia.1

Será a inflamação o principal elo que faltava entre os fatores de risco ambiental e os transtornos psiquiátricos?

A inflamação foi identificada como um elo chave entre os fatores de risco ambiental e os transtornos psiquiátricos

A pesquisa realizada pela Professora Leboyer e seus colaboradores identificou a inflamação como um elo chave que faltava entre os fatores de risco ambientais e os transtornos psiquiátricos. A interação entre a imunogenética e os fatores de risco ambientais, como as infecções, o estresse e um estilo de vida não-saudável, leva a uma leve inflamação nas áreas periféricas, no cérebro e no intestino, que induz muitas vias diferentes, como a produção de auto-anticorpos cerebrais e de retrovírus endógeno humano (HERV).2-4

Na interface gene-ambiente, o HERV pode desencadear transtornos genéticos de novo e transtornos auto-imunes.  O aumento dos níveis da proteína envelopada do HERV-W endógeno ativado que ocorre em resposta à infecção, e que causa inflamação e neurotoxicidade, pode levar ao desenvolvimento de transtorno bipolar e esquizofrenia.4,5 Por esse motivo, um dos objetivos da medicina de precisão é justamente desenvolver um anticorpo capaz de neutralizar a proteína envelopada do HERV-W.

Um dos objetivos da medicina de precisão é desenvolver um anticorpo capaz de neutralizar a proteína envelopada do HERV-W

Definindo o conceito de 'Psicose auto-imune’

A inflamação aumenta a passagem de antígenos pela parede intestinal até a corrente sanguínea, o que leva ao desenvolvimento de auto-anticorpos cerebrais contra os receptores de neurotransmissores (ex: o receptor NMDA). Estes auto-anticorpos podem ser identificados antes do aparecimento dos transtornos psiquiátricos e em pacientes com esquizofrenia,3 levando ao conceito de ‘psicose autoimune’.6 No futuro, será possível ter tratamentos direcionados à psicose autoimune como, por exemplo, imunomoduladores.

Em direção a um instituto virtual de precisão em psiquiatria

Um facilitator-chave no caminho em direção à precisão em psiquiatria é o compartilhamento de dados de pesquisas, plataformas e inovações, com o objetivo de reduzir o custo e o risco de desenvolver novas estratégias de tratamento. A professora Leboyer revelou que sua meta pessoal é desenvolver “um instituto virtual” para precisão em psiquiatria, construindo parcerias fortes entre o meio acadêmico, a indústria, os governos e os pacientes.

Desenvolver “um instituto virtual” para precisão em psiquiatria, construindo parcerias fortes entre o meio acadêmico, a indústria, os governos e os pacientes

Um dos primeiros passos nessa direção é a criação do Foundation FundaMental, uma iniciativa científica colaborativa dedicada à luta contra os principais transtornos psiquiátricos.

Para mais informações sobre como as análises de big data podem possivelmente ajudar na direção à medicina de precisão em psiquiatria, acesse:https://brazil.progress.im/pt-br/node/3606. Para mais informações sobre a relação intestino-cérebro, leia esse artigo recente do ECNP 2018: https://progress.im/en/content/probiotics-psychobiotics-nutrition-gut-and-brain

Referências
  1. Kahn RS et al. Lancet Psychiatry 2018:10:797-807.
  2. Leboyer M et al. BMC Med 2016;14:173.
  3. Jezequel J et al. Nature Comm 2017:8:1791.
  4. Perron H et al. Transl Psychiatry 2012;2:e201.
  5. Perron H et al. Biol Psychiatry 2008;64:1019-23.
  6. Ellul P et al. FrontPsychiatry 2017;8:54.
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