Isolamento social - um portal para a patologia

O isolamento social, agravado pela COVID-19, afeta muitos sistemas importantes para a saúde mental, especialmente os relacionados à depressão. Isso inclui expressão gênica e níveis de monoaminas, volume do hipocampo, cognição, sono e o eixo HPA, disse Maria Oquendo (Universidade da Pensilvânia, EUA) ao CINP 2021 Virtual (Congresso do Colégio Interacional de Neuropsicofarmacologia).

Jovens adultos que se percebem solitários parecem se sentir menos recompensados por estímulos sociais agradáveis do que aqueles que não relatam solidão:  imagens de ressonância magnética (IRM) funcional mostraram que ver fotos de pessoas produzem ativação mais fraca do estriado ventral.1

Um estudo de coorte do Reino Unido havia mostrado que o isolamento induzido por luto recente está associado a um padrão alterado dos níveis de cortisol diurno, que é associado ao aumento de morbidade e mortalidade.2

Em roedores, o isolamento forçado leva à redução do volume em áreas do hipocampo, que em humanos são associadas à depressão e alterações na plasticidade neuronal.3

A solidão prejudica a ativação do cérebro em resposta a estímulos sociais e não-sociais agradáveis

Esses três exemplos dos profundos efeitos do isolamento foram alguns dos descritos por Marian Oquendo em sua plenária.

 

Em animais sociais, a ausência de contato tem efeitos profundos

Uma vez que evoluímos para depender do grupo quanto à segurança e à sobrevivência, não é surpreendente que o isolamento tenha efeitos negativos, argumentou ela. Todavia, sua extensão, conforme revelado em uma recente revisão, é notável:4

  • a saúde mental e o sono são comprometidos com aumento das taxas de depressão, dor e fadiga
  • existem efeitos adversos na funcionalidade executiva, na atenção e no controle executivo
  • o isolamento leva ao comprometimento da imunidade celular e humoral, aumento da resposta de citocinas pró-inflamatórias ao estresse, aumento do uso de recursos em saúde e aumento da mortalidade em pessoas com mais de cinquenta anos.

Isso também leva à hipervigilância à ameaça. E esta é uma das consequências mais destrutivas, disse a professora Oquendo, uma vez que eventos ambientais que reafirmam uma sensação de “ameaça” exacerbam a ansiedade, a hostilidade e a agressividade, perpetuando, desse modo, a espiral viciosa de isolamento.

O isolamento desorganiza os sistemas de neurotransmissores e, consequentemente, comportamentos, como a cognição e agressividade, implicados em psicopatologias

 

Estudos em animais revelam efeitos sobre os neurotransmissores

Em hamsters (cricetos) fêmeas, o isolamento social induz agressividade e altera a regulação da ocitocina e a ligação do receptor 5HT-1a nos circuitos cerebrais que medeiam a interação social.5

Camundongos que são isolados após o desmame são significativamente mais agressivos do que os animais não isolados e possuem menor expressão do gene do receptor de serotonina no córtex pré-frontal.6

E no peixe-zebra, uma espécie altamente social, o isolamento reduz os níveis de serotonina no cérebro inteiro.7

 

Implicações da COVID-19

Mesmo antes da pandemia da COVID-19 impor níveis sem precedentes de isolamento social, muitos países estavam passando por uma epidemia de solidão.

Nos Estados Unidos, Europa e China, as taxas de solidão auto-relatadas começam a aumentar acentuadamente após os 50 anos de idade e, aos 65 anos, parecem afetar aproximadamente 20% da população.8

Com ou sem COVID, o manejo do isolamento e de suas consequências neurobiológicas é um desafio que a sociedade cada vez mais terá de enfrentar.

Our correspondent’s highlights from the symposium are meant as a fair representation of the scientific content presented. The views and opinions expressed on this page do not necessarily reflect those of Lundbeck.

Referências

1. Cacioppo JT et al. J Cogn Neurosci 2009; 21(1): 83–92

2. Stafford et al. Pscyhoneuroendocrinology 2013;38:2737-45

3. Pereda-Pérez I et al. Neurobiol Learn Mem 2013 Nov;106:31-9

4. Hawkley LC, Capitanio JP. Phil.Trans R Soc B 2015;370: 20140114

5. Ross AP et al. Hormon Behav 2019;116:104578

6. Bibancos T et al. Genes Brain Behav 2007;6:529-35

7. Shams S et al. Behavioural Brain Research 2015;292:283

8. Xia N, Li H. Antioxid Redox Signal 2018;28:837-51

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