Tecnologia Digital e a experiência do paciente - quais são as oportunidades e os desafios da ‘mHealth’? | Progress In Mind

Tecnologia Digital e a experiência do paciente - quais são as oportunidades e os desafios da ‘mHealth’?

A tecnologia digital já transformou a nossa forma de trabalhar, porém, o que talvez seja surpreendente, ela ainda não teve o mesmo impacto na forma em que fornecemos os cuidados de saúde. Ainda não sabemos ao certo como ou mesmo se isso deveria ocorrer. Muitos dos desafios encontrados se assemelham a outros previamente experimentados nas etapas iniciais de desenvolvimento de medicamentos, o que inclui avaliar a eficácia e a segurança, e decidir qual será a fonte do financiamento. A necessidade de unir acadêmicos, clínicos e indústria foi demonstrada durante uma sessão de debates inovadora no ECNP 2018, abordando o tema de ‘mHealth’ (‘mSaúde’ ou Saúde ‘móvel’) - que é o uso da tecnologia digital para medir a experiência do paciente.

Uso de tecnologias inovadoras para identificar parâmetros biológicos

Martien Kas (Holanda, Instituto Groningen de Ciências Evolutivas da Vida) apresentou o PRISM1 um projeto com múltiplos parceiros cujo objetivo é desenvolver uma abordagem biológica quantitativa para a compreensão de doenças neuropsiquiátricas (inclusive depressão maior e esquizofrenia), de modo a facilitar o desenvolvimento de novas terapias, com ênfase na causa biológica, ao invés do enfoque tradicional na classificação clínica. Estão usando tecnologias inovadoras, como por exemplo o monitoramento através do smartphone, para fazer a fenotipagem detalhada de uma coorte de pacientes com esses transtornos que compartilhem sintomas comuns, como isolamento social e certos comprometimentos cognitivos.

O objetivo do projeto é desenvolver uma abordagem biológica quantitativa que ajude na compreensão das doenças neuropsiquiátricas

O professor Kas descreveu como um aplicativo de smartphone é usado para o monitoramento comportamental remoto passivo, com dados de histórico de chamadas, mensagens SMS e localização, permitindo assim a avaliação do ritmo dia-noite do indivíduo, bem como do seu padrão de permanência em casa. Esses parâmetros demonstraram um isolamento social significativo nos pacientes com esquizofrenia, em comparação aos controles da mesma idade, com menos tempo gasto nos smartphones e mais tempo passado em casa.

Benefícios e desafios

Os dados podem ser acessados em um ambiente de mundo real

Dentre os benefícios, destacamos a avaliação dos dados em um ambiente de mundo real, e a possibilidade de sinalizar mudanças comportamentais relevantes às partes interessadas, por exemplo: provocando uma intervenção ou disparando um aviso ao cuidador. Os desafios futuros incluem a necessidade de estudos de viabilidade e de validação para uma variedade de grupos-alvo, melhorar a padronização, evoluir da mera obtenção de dados para o uso destes dados na busca de novas perspectivas, bem como o impacto da lei de privacidade de dados.

Kate Saunders (Departamento de Psiquiatria, da Universidade de Oxford, Reino Unido) continuou discorrendo sobre o uso do rastreamento online do humor na área de psicoeducação, quando as intervenções demandam muitos e estão geralmente indisponíveis. O uso da tecnologia móvel oferece a possibilidade de coletar dados em tempo real, de fornecer intervenções automatizadas e individualizadas para um objetivo específico, com melhor acesso e engajamento do paciente. O estudo SIMPLe, de pacientes com transtorno bipolar, combinou o monitoramento de sinais e sintomas com o feedback diário2 62% dos pacientes disseram estar satisfeitos com o programa, mas a taxa de evasão foi elevada: 30% abandonaram o estudo no primeiro mês e apenas 34% concluíram os 6 meses de estudo. Isto não se aplica exclusivamente aos aplicativos médicos. Em geral, estima-se que o uso de um aplicativo em geral seja de apenas 43% após o primeiro mês do uso, caindo para 29% no 3º mês 3.

A taxa de evasão no uso dos aplicativos é elevada

O Dr. Saunders também falou sobre os resultados usando o sistema online True Colours de auto-gestão para pacientes com transtorno bipolar, no qual um aplicativo para smartphone foi combinado a outra forma de monitoramento. O retorno dado pelos pacientes destacou o quanto é importante para eles aprender sobre a própria condição. A estabilidade do humor melhorou durante o estudo, embora este tenha sido um achado observacional e não intervencionista, e as taxas de retenção foram altas, de 80%, após um ano.

Uso mais amplo dos smartphones 

Os smartphones podem ser utilizados de forma mais ampla na saúde, além do registro diário de sintomas e eventos, revelou o Professor Ulrich Ebner-Priemer (Instituto de Tecnologia de Karlsruhe, Alemanha). Graças a seus sensores, eles são ideais para monitorar vários sinais e sintomas chave de doenças mentais como o transtorno bipolar, o que inclui a diminuição da necessidade de sono (uso geral do smartphone) e agitação psicomotora (GPS, aceleração).

Os clínicos precisam disponibilizar os fatos

O problema de diversos estudos é a confirmação dos fatos, pois embora existam dados de monitoramento suficientes, faltam evidências conclusivas obtidas através de uma avaliação independente do estado dos pacientes. O Professor Ebner-Priemer enfatizou a necessidade de combinar os dados de monitoramento dos pacientes com as avaliações clínicas, em ensaios adequadamente desenhados, de modo a obter resultados consistentes. Ele concluiu que embora a metodologia já exista, ainda faltam conjuntos de dados apropriados. Essa perspectiva real fornecida pelos clínicos é necessária para determinar se os dados obtidos pelo sensor são significativos e também para treinar os sistemas.

A perspectiva da indústria

 Uma variedade de novas tecnologias permitiu modificar a avaliação do paciente de consultas episódicas para um monitoramento abrangente e contínuo.

Outros avanços incluem on-demand genomics, on-body physiology, e point of need biochemistry. A chave está em combinar todos esses diferentes tipos de dados, compartilhando todos os benefícios resultantes com os pacientes para incentivar sua participação. Ele descreveu como as novas tecnologias permitiram modificar a avaliação do paciente, de consultas isoladas para um monitoramento abrangente e contínuo, pois os dados do smartphone não podem ser vistos isoladamente.

Combinar diferentes tipos de dados e compartilhar todos os benefícios resultantes com os pacientes para promover a participação

Segundo Vaibhav Narayan, uma das possibilidades consideradas pela indústria leva em consideração o papel das tecnologias digitais nas três fases de desenvolvimento de medicamentos. ‘Em busca do medicamento', por exemplo, colaborando com ensaios clínicos; ‘sobre o medicamento', por exemplo, criando valor para uma marca ou classe de medicamentos através da predição de recaída e permitindo a otimização do tratamento; e `’além do medicamento', por exemplo, o impacto a nível da doença, como uma ferramenta de apoio ao paciente. Uma possibilidade alternativa considera um espectro que vai do bem-estar à doença crônica, à medida que o paciente se desloca de baixo para alto risco e doença inicial, até a doença crônica. A meta é o engajamento continuado em todo o trajeto, com o potencial de uso das soluções digitais para uso no pré-diagnóstico (ex: rastreamento de risco), no pós-diagnóstico (ex: prevendo a progressão da doença) e pós-tratamento (ex: monitoramento da eficácia). Do ponto de vista da indústria, será crucial trazer valor para todos os envolvidos, garantindo um modelo sustentável de negócio e uma estrutura sólida de evidências científicas.

A meta é o engajamento continuado em todo o trajeto da doença, pois as soluções digitais têm potencial para serem utilizadas nas fases pré-diagnóstico, pós-diagnóstico, e pós-tratamento

Qual a opinião dos pacientes?

A perspectiva final, fornecida pelo Dr. Lior Carmi (Universidade de Telaviv, Israel) foi a do paciente. Ele apresentou resultados de um estudo em andamento sobre depressão: o iFeel. Enquanto os pacientes se preocupavam principalmente com o anonimato (o que você precisa saber a meu respeito, e quem ficará sabendo sobre isso?), com a adesão às tarefas (o que eu preciso fazer?) e questões técnicas (afetaria o tempo de vida útil da bateria do smartphone?), os clínicos queriam uma interface de fácil acesso, que permitisse a interpretação imediata dos resultados.

A sessão terminou com um animado debate entre o público e os palestrantes, que destacou a importância do engajamento do paciente, a necessidade de uma regulamentação adequada e o reconhecimento de possíveis obstáculos, mas também das oportunidades que a mHealth oferece para os pacientes e os clínicos.

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