Os antipsicóticos são necessários para o tratamento de longo prazo da esquizofrenia?

“Precisamos de antipsicóticos para o tratamento de longo prazo da esquizofrenia?” foi o título desse importante debate no Congresso Europeu de Psiquiatria da Associação Europeia de Psiquiatria (EPA2020). Ambos os palestrantes concordaram com a eficácia do tratamento antipsicótico na fase aguda,1 porém houve uma discussão sobre se e como o tratamento medicamentoso poderia ser reduzido ou parado à longo prazo.

As taxas de recaída são altas, caso o tratamento de manutenção seja parado

As taxas de recaída são baixas no momento em que os pacientes respondem e se estabilizam, porém chegam a 97% aos 36 meses após a descontinuação do tratamento

Robin Emsley (Universidade Stellenbosch, Cidade do Cabo, África do Sul) apresentou a necessidade de tratamento antipsicótico de manutenção na esquizofrenia, com foco nas consequências de parar o tratamento, uma vez estabelecido.

As taxas de recaída são baixas no momento em que os pacientes respondem e se estabilizam,2 mas chegam a 97% aos 36 meses após a descontinuação do tratamento.3 Um estudo apresentou uma taxa de recaída de 43% em 18 meses; todavia, o tratamento não pôde ser descontinuado em 50% dos casos.4 As recaídas geralmente ocorrem pouco tempo após a descontinuação do tratamento,5 e uma duração mais longa do tratamento não reduz o risco de recaída.3,6 Não existem sinais precoces confiáveis de recaída iminente.6

As consequências da recaída podem ser graves, incluindo efeitos psicológicos e biológicos. Episódios recorrentes de recaída podem levar à refratariedade ao tratamento, com ausência de eficácia do tratamento em 1 a cada 6 pacientes remetidos no primeiro episódio, após um segundo episódio.7

Alguns estudos mostram que os pacientes podem permanecer livres de sintomas sem a medicação, devido à natureza bifásica da esquizofrenia. Os antipsicóticos são importantes na fase ativa de deterioração, com maior potencial de retirada gradual da medicação na fase crônica do platô.

A decisão do risco-benefício, concluiu o professor Emsley, encontra-se entre o alto risco de recaída e as consequências associadas, caso os antipsicóticos sejam descontinuados, em contraste com as preocupações de tolerabilidade e segurança do tratamento de longo prazo. Ele defendeu a continuidade do tratamento de manutenção com o antipsicótico com a menor dose terapêutica.

As consequências da recaída podem ser graves, incluindo efeitos psicológicos e biológicos

 

O tratamento de longo prazo não é necessário para todos

Robin Murray (King's College, Londres) adotou a visão oposta de que antipsicóticos não são necessários para o tratamento profilático de longo prazo de todos os pacientes com esquizofrenia.

Embora os antipsicóticos sejam importantes na fase aguda, a profilaxia à longo prazo é menos clara. Os pacientes relutam em fazer tratamento de longo prazo quando se sentem bem, especialmente com uma carga de efeitos adversos, que incluem a obesidade.

Murray sugeriu que um quinto dos pacientes poderia parar os antipsicóticos após o primeiro episódio, e outros mais poderiam reduzir as doses. Em um estudo de acompanhamento de 10 anos,8 19% dos pacientes com esquizofrenia não apresentaram sintomas psicóticos e estavam sem utilizar antipsicóticos. Em outro estudo, os resultados no braço do estudo que continuou a usar o antipsicótico foram melhores aos 18 meses, porém, em 7 anos, os indivíduos no braço de redução/retirada do medicamento estavam com a funcionalidade melhor.4 

O professor Murray concluiu que os antipsicóticos não devem ser abandonados, mas utilizados no tratamento de longo prazo na dose mínima tolerada pelo menor tempo possível, com o objetivo de parar o tratamento em alguns pacientes.

O futuro

No momento em que os pacientes iniciam a retirada do tratamento, o papel do psiquiatra consiste em apoiar sua tomada de decisão

No geral, ambos os médicos estiveram mais de acordo do que em posições contrárias, reconhecendo os prós e contras do tratamento profilático e sugerindo que a redução da dose deve ser considerada. Eles enfatizaram a necessidade de pesquisas para identificar quais pacientes podem parar o tratamento, quando e como. Muitas vezes, o paciente inicia a retirada do tratamento, e o papel do psiquiatra é apoiar a sua tomada de decisão, com as melhores evidências disponíveis.

Our correspondent’s highlights from the symposium are meant as a fair representation of the scientific content presented. The views and opinions expressed on this page do not necessarily reflect those of Lundbeck.

Referências
  1. Robinson DG et al. Am J Psychiatry 1999;156:544-9
  2. Emsley R, et al. J Clin Psychopharmacol 2008;28:210-3
  3. Emsley R, et al. J Clin Psychiatry 2012;73:e541-7
  4. Wunderink L, et al. J Clin Psychiatry 2007;68:654-61
  5. Emsley R, et al. J Clin Psychiatry 2012;73:e541-7
  6. Gitlin M, et al. Am J Psychiatry 2001;158:1835-42
  7. Emsley R, et al. J Clin Psychopharmacol 2013;33:80-3
  8. Morgan C, et al. Psychol Med 2014;44:2713-26
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